Lula defende Bolsa Família, atuação de Alexandre de Moraes, comenta relação com Donald Trump e destaca o Redata

Antes de cumprir agenda em Montes Claros, no dia 17 de setembro, o presidente da República e candidato à reeleição concedeu entrevista à Rádio Itatiaia. Durante a conversa, Lula comentou a disputa eleitoral em Minas Gerais e cobrou transparência nas investigações relacionadas ao Banco Master.

Por

•


O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), desembarcou em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, na penúltima quinta-feira de setembro (17), para cumprir agenda institucional e compromissos da sua campanha à reeleição.

Imagem: reprodução/Itatiaia

Antes dos eventos na cidade, Lula concedeu entrevista à Itatiaia, onde elevou o tom contra adversários, defendeu o legado social de suas gestões e projetou metas econômicas e tecnológicas para o futuro do Brasil.

A visita serve como combustível para consolidar o palanque do ex-ministro Patrus Ananias (PT), que disputa o governo do estado e figura o segundo lugar nas pesquisas eleitorais que indicam segundo turno, em confronto com Cleitinho Azevedo (Republicanos).

Ao ser questionado sobre este possível cenário, Lula evitou adiantar arranjos partidários e preferiu mirar o perfil digital do oponente de Patrus.

“O Cleitinho é um homem de internet, ele é pouco prático na administração”, afirmou.

A dívida de Minas Gerais

O presidente também falou sobre a dívida histórica de Minas Gerais com a União. Segundo ele, a proposta federal de renegociação prevê a economia dos juros que seriam aplicados seja obrigatoriamente utilizada para investir em educação, segurança e transporte. Lula destacou que o plano foi elaborado união com auxílio do Senador Rodrigo Pacheco (PSD), sem iniciativa do então Governador Romeu Zema (Novo).

“São 30 anos para pagar a dívida. Os juros foram reduzidos a zero. O Estado de Minas Gerais deixará de pagar seis bilhões este ano e até 2030 a economia será de 34 bilhões. O que nós estamos exigindo é que uma parte disso seja investida no ensino médio para que os nossos meninos e meninas saiam profissionalizados”, explicou.

Na sequência, o presidente saiu em defesa do parceiro político e ex-governador mineiro, Fernando Pimentel.

“Fica acusando que era caloteiro, que não pagava a dívida, quando, na verdade, foi o Pimentel que teve que pagar a dívida para o governo durante os quatro anos dele. Quando ele estava terminando o mandato, ganhou um processo, e aí Minas Gerais deixou de pagar. Zema se beneficiou oito anos do não pagamento da dívida e agora vai ter que pagar”, completou.

Orçamento e o ajuste fiscal

O chefe do Executivo relembrou a situação financeira do país quando tomou posse em 2023 e ressaltou que a previsão positiva para o fechamento das contas públicas.

“Pegamos um governo em 2023 com déficit de 2,8% e mais um calote dos precatórios de R$ 94 bilhões. Não tinha dinheiro para o Bolsa Família, não tinha dinheiro para a saúde, não tinha dinheiro para a educação. Nós fizemos o acordo, aprovamos o orçamento e hoje nós apresentamos um novo orçamento agora com superávit de 0,1%”.

Em forte posicionamento contra medidas defendidas pelo mercado financeiro, Lula descartou a desindexação dos benefícios sociais e garantiu a política de aumento real para o salário mínimo. Ao classificar como “imbecilidade” o argumento de que o fortalecimento do piso nacional gera inflação, o mandatário resgatou o histórico dos seus mandatos anteriores.

“Ninguém vai fazer o pobre pagar o preço de qualquer ajuste fiscal. Porque toda vez que falam em ajuste fiscal, é o pobre que paga. E no meu governo não é assim. A gente vai continuar dando o reajuste do salário mínimo, porque é o mínimo necessário para a pessoa sobreviver e eu não vou penalizar os pobres para beneficiar os ricos”, disparou.

Na mesma esteira de defesa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu críticas ao Bolsa Família, posicionando o programa de transferência de renda como um suporte fundamental de transição e exaltou a honestidade dos beneficiários de baixa renda ao citar dados de empregabilidade.

“Só para você ter ideia, 80% dos trabalhadores que estão trabalhando hoje foram pessoas que saíram do Bolsa Família, porque o povo pobre é honesto, ele recebe o Bolsa Família, mas quando ele arruma um emprego que ele está ganhando o melhor, ele não quer ficar recebendo do Estado”, enfatizou o presidente, reforçando o papel da assistência social como um trampolim para a autonomia financeira e dignidade dos cidadãos.

Acordo de Mariana e ataques ao clã Bolsonaro

Durante a entrevista, o candidato à reeleição enfatizou a atuação incisiva do governo federal para concretizar o novo acordo de repactuação dos danos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, estipulado em R$ 170 bilhões. Ele destacou que, logo ao assumir a presidência, orientou seus ministérios e a Advocacia-Geral da União (AGU) a priorizarem as negociações. Do montante total, cerca de R$ 49 bilhões estão sob a responsabilidade de gestão do Branco Nacional do Desenvolvimento (BNDES).

Lula garantiu a prioridade de pagamentos imediatos às populações de menor renda , como os pescadores locais, criticou a falta de iniciativas da gestão anterior e reafirmou o compromisso com a revitalização ambiental completa do leito e das florestas nativas da bacia do Rio Doce.

Ao ser questionado sobre o crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais, Lula disse minimizou as sondagens de momento e afirmou que a sua motivação de campanha não é pautada por números de intenção de voto.

“Vai ter um dia em que o povo vai decidir que Brasil que ele quer. E quando ele decidir, eu tenho certeza que o povo vai fazer uma avaliação do que aconteceu na vida dele nos meus anos de governo e o que é que o outro está prometendo para esse povo”, declarou.

Na sequência, o petista elevou o discurso ao elencar uma séria de acusações de corrupção contra Flávio Bolsonaro, ligando-o diretamente ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

O petista classificou as movimentações do oponente como “uma falcatrua que nós estamos tentando desmontar”, citando supostas irregularidades no financiamento de um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Eles criaram o Vorcaro, um banqueiro e eu transformei em um prisioneiro. Eles montaram uma quadrilha na Previdência Social. Nós não só desvendamos a quadrilha, prendemos eles, já recuperamos seis bilhões em bens dos ladrões e já devolvemos 3,5 bilhões a cinco bilhões de aposentados e pensionistas”, acusou o candidato, usando o combate aos crimes eleitorais como vitrine eleitoral.

Alexandre de Moraes, transparência e reforma no judiciário

Ainda no palanque regional, o presidente renovou os elogios ao correligionário Patrus Ananias para o governo de Minas. O mandatário usou o histórico administrativo do aliado para credenciá-lo como o nome mais preparado na disputa pelo Palácio Tiradentes.

“De todos os candidatos que estão disputando, [Patrus] tem uma experiência extraordinariamente exitosa, que foi a governança da cidade de Belo Horizonte, e tem mais uma experiência exitosa quando foi ministro do combate à fome no meu governo”, declarou.

Ao abordar as tensões institucionais do país, Lula saiu em defesa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O mandatário cravou que o estopim da crise é o avanço das apurações criminais contra a família Bolsonaro e a postura firme do magistrado na preservação institucional, mas ressaltou que a competência de julgar eventuais desvios do ministro cabe à própria corte.

“A briga da família Bolsonaro com o Alexandre Moraes não é por causa do Banco Master, é por causa da prisão da família, é por causa do comportamento do Alexandre Moraes, que foi correto em defender a democracia desse país”, pontuou.

O presidente exigiu investigações transparentes sobre denúncias de bastidores que envolvam outras figuras de poder.

“Vamos divulgar o que aconteceu com todo mundo:  quem foi que foi para a orgia  que foi montada, quem gastou dinheiro, quem recebeu dinheiro, quem foi jantar, dormir na casa de quem… Tudo isso tem que aparecer. O que você não pode é julgar uma pessoa antes das eleições. Quem é que quer manter sob segredo a safadeza que foi feita nesse país? Tem deputado com medo, tem senador com medo, tem ministro com medo, tem juiz com medo. Divulgue, o povo quer saber ”.

Ao encerrar as suas considerações sobre o Judiciário, o presidente enfatizou que o peso das decisões irrecorríveis exige postura moral exemplar dos magistrados perante a sociedade, alertando que o respeito da opinião pública é a base para o cumprimento do seu papel institucional.

“A Suprema Corte precisa ser respeitada. Se a Suprema Corte não tiver respeito da opinião pública, fica muito difícil a gente acreditar que a Suprema Corte é o guardião da nossa Constituição”, afirmou.

Bastidores com Trump e “obsessão”

Questionado sobre a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula adotou uma postura de firmeza soberana.

“O Brasil não se curvará à arrogância de nenhum presidente de nenhum país do mundo. O Brasil vai fazer aquilo que é de interesse do povo brasileiro. A nossa soberania, a nossa democracia é intocável. Aqui ninguém põe a mão. E o Trump sabe disso, que eu já falei com ele três vezes, mas vamos esperar para ver. O ser humano tem muita imprevisibilidade”.

Nos bastidores da diplomacia, o presidente brasileiro detalhou a dinâmica da sua relação com a Casa Branca, apontando o secretário de Estado Americano, Marco Rubio, como o principal entrave para a cooperação bilateral.

“Eu trato ele bem e ele me trata bem. O problema é que quando terminamos a reunião, aparece alguém que não está tudo bem. Eu acho que é ele [Marco]. Parece que ele não gosta da América Latina, do Brasil”, desabafou Lula.

O presidente revelou ter colocado na mesa uma proposta de cooperação da Polícia Federal para combater facções criminosas Comando Vermelho e ao Primeiro Comando da Capital (PCC), mas o aceno foi ignorado.

“Nunca mais ele me respondeu. Toda vez que eu converso com Trump, eu não fico no discurso”, disparou o presidente brasileiro.

2º turno, alianças, educação e tecnologia

Ao projetar os cenários de articulação para um eventual segundo turno, Lula ressaltou a imprevisibilidade à atividade partidária e defendeu o pragmatismo nas alianças eleitorais. Para ilustrar a sua postura, o mandatário exaltou a escolha de Geraldo Alckmin como seu vice, classificando-o como “extraordinário” e destacando seus 16 anos de experiência no governo de São Paulo. Ele afirmou que não descarta dialogar com nenhum adversário político após a definição da primeira etapa nas urnas.

“A minha disposição é de conversar com quem for necessário conversar”.

Indagado se procuraria o candidato Augusto Cury (Avante), ponderou não saber se será necessário, mas relembrou o histórico e tenso acordo costurado com Leonel Brizola nas eleições de 1989 para justificar a sua capacidade de conciliação.

Em tom de forte crítica à centralidade das redes sociais nas campanhas modernas, o petista buscou se posicionar como o nome de maior estabilidade institucional na disputa.

“Governar o país não é uma aventura. Isso aqui é um gigante. Você não governa o Brasil pela internet, você governa o Brasil com políticas concretas, com decisões concretas. E não tem hoje no Brasil ninguém que esteja mais preparado do que eu para cuidar do povo brasileiro    “.

Lula elegeu a educação como sua “obsessão” e defendeu uma reformulação nas universidades públicas com foco na transição energética, minerais críticos e na indústria digital. Ele celebrou os avanços trazidos pelo Marco Regulatório da Rede de Data Centers (Redata), apontando que a matriz energética limpa e estável do país é um diferencial imbatível para investidores.

“Nós queremos ter inteligência artificial em língua portuguesa. O Brasil atrai muitos investimentos porque nós temos muita facilidade de produzir energia para isso. Nenhum país do mundo tem a capacidade de produzir a quantidade de energia renovável que tem o Brasil, e isso é um atrativo para os investimentos”, finalizou.

🔥 Últimas

🥇Mais lidas


TV Notícia | Comunicauã

Descubra mais sobre TV Notícia - Na prática da informação

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo